Cumplicidades...
... a quatro mãos, duas pensam e transformam em cumplicidades escritas, as outras usam os olhos para as terem em imagens.
Abro os olhos.
Não posso adormecer, não quero sonhar.
Rodei a cabeça de encontro à janela da minha limusina, esta descia a rua velozmente como se desejasse terminar aquele contacto com o asfalto o mais depressa possível.
Sentado no banco de trás olhava as nuvens que se agrupavam no céu que escurecia. Mais um dia que tinha acabado. Mais um dia que tinha aguentado naquele mundo fútil e sem significado.
Desci os olhos do céu para a terra e capturei a imagem de duas mulheres que partilhavam comigo o banco traseiro. À primeira vista eram duas belas mulheres, ambas altas, esguias, com rostos sem nenhuma marca ou imperfeição, cabelos louros compridos que adejavam livremente ao vento que entrava por uma janela aberta. Para mim não passavam de meros objectos que adornavam a minha limusina. Uma delas trabalhava para mim, a outra ou era irmã ou amiga, mas também não importava. Passei as mãos pela minha cara parando sobre os olhos.
Vivi durante muito tempo neste meio para saber que o que importa é o aspecto, por isso é que usava este fato feito por medida, este relógio, que, na minha opinião, era obscenamente caro, e tinha um treinador particular. Quanto melhor ou mais cara a tua roupa, mas credibilidade e importância te dão.
Olhei outra vez para as minhas acompanhantes. A que trabalhava para mim estava a dormir encostada ao vidro da janela que se encontrava meio aberto. Sei que estou a olhar para uma das mais belas mulheres que existiam, mas ao vê-la assim, sem toda a sua pose e acessórios parecia que estava perante uma menina que adormecera depois de muito chorar por uma asneira cometida. Vi nela vulnerabilidade. A outra estava sentada ao meu lado e olhava-me fixamente. Era incrivelmente atraente. Se eu não estivesse habituado a ver o incrivelmente atraente e lindo todos os dias, seria eu que estaria a olhar fixamente para ela.
Senti a sua mão na minha perna. Sabia o que ela queria. A outra mão tomou a liberdade de percorrer a minha face e o meu cabelo. Ela queria o que eu representava, com todos os meus acessórios. Aproximou-se mais e começou a beijar-me o pescoço. Ela perseguia a ideia que eu transmitia, perseguia e estava determinada a conseguir. Os seus beijos quentes e leves percorreram a minha face até chegarem à minha boca onde se perderam na liberdade natural de um beijo. Eu não queria tê-la assim, mas deixei-me levar pela sensação de solidão que me percorria pelas veias e lentamente me embriagava o corpo e a mente. O impulso de me libertar era tão forte como o impulso de me envolver ainda mais naquele beijo e deixar as nossas almas tocarem-se. Senti a sua mão a deixar o meu peito ofegante e a dirigir-se para o meu cinto. Nesse momento fui arrastado para a realidade do acontecimento. Fui levado para a dura realidade de que as nossas almas nunca se tocariam, pois a mulher que segurava nas mãos estava desprovida de tal coisa. Eu era um meio para alcançar um fim. Quanto mais a beijava mais só me sentia.
Acabei por a afastar segurando-a pelos pulsos. Olhei-a nos olhos azuis e vi que ela era apenas um invólucro belo, mas vazio. Obriguei-a a sentar sem recorrer a palavras ou força. Assim que se sentou cruzou os braços e amuou como uma criança mimada a quem tinha sido negado um brinquedo. Estaria eu rodeado de crianças? Ainda vi, pelo canto do olho, a sua mão se erguer sobre a minha perna mais uma vez, mas desta vez sem contacto.
Finalmente paramos. Tentei acordar a minha fonte de rendimento dando-lhe umas palmadinhas leves na face. Ela acordou para os meus olhos e sorriu quase como se tratasse de um acto reflexo. Um sorriso para compensar os seus erros era muito pouco, mas devido à sua real importância tinha que servir. Arrastei-a gentilmente para fora da limusina e esperei algum tempo até ela se conseguir equilibrar nos seus saltos altos moldadores de silhuetas.
Bati a porta com o pé fechando lá dentro uma cabeleira loura que se preparava para esvoaçar na rua. Vi os seus olhos fitarem os meus e senti a ausência de sentimento perante aquela expressão vulgarmente única e perfeita. Ordenei o motorista a levá-la para onde desejasse de preferência longe.
Ao sair do elevador doze andares a cima entrei no lugar mais desprovido de véus visuais que existia. Era um ambiente frio, mesmo com o calor humano que se sentia e com as cores quentes que pintavam as tristes paredes daquele espaço decadente.
Tive que agarrar a menina de ouro pela cintura para a estabilizar, não para disfarçar a ausência do equilíbrio que naquele meio era bem conhecido.
Parei por segundos, fechei os olhos e inspirei fundo.
Aqui estou, no topo. Como aqui vim parar não interessa, quem sou, que fui, o que sou, o que fiz, nada disto possui mínimo significado. Só sei que aqui estou, no topo, aqui vim parar, ao topo, daqui quero cair, do topo.
As alturas, essas provocavam-me vertigens desde que me lembro. Era uma sensação terrível, que me limitava. Nunca subi à grande árvore na quinta da minha avó, nunca brinquei na casa que lá havia, nunca fiquei a mais de meio metro do solo durante muito tempo.
Agora que me encontro aqui, no topo, essas vertigens são apenas uma memória tão estranha que chego mesmo a pensar se não serão apenas uma invenção, uma história produzida pela minha mente para ter algo que contar sobre a infância que me foi roubada.
Aqui não sinto vertigens, sinto… Sinto a ausência de sentir, não sinto nada para além do vento na cara. Este vento que me acaricia as feições e acalma o meu espírito, que embriaga o meu cérebro e intoxica o meu coração de paz, como que uma voz que me diz que posso descansar, finalmente. Fecho os olhos para sentir, melhor.
As pálpebras dos meus olhos fechados transformam-se numa tela, onde se projectam pequenos fragmentos da minha vida. Uma face, uma casa, um dia especial, um café, um sorriso, uma lágrima, um olhar, pequenos momentos que fazem, uma vida, imagens, estáticas. Mas elas começam a passar cada vez mais depressa, como se o projector de slides, fixado na parede do meu crânio, tivesse enlouquecido. Uma sensação estranha do peito fez-se sentir e perco o equilíbrio por breves instantes. Abro os olhos e verifico que não me movi um único milímetro. A vertigem foi apenas na minha cabeça.
A vertigem. A vertigem não é o medo de cair, mas a sensação de desejo de mergulharmos na queda. O que nos assusta é essa vontade que sentimos, como se senti-la fosse terrivelmente proibido. Temos medo desse nosso desejo. Sendo assim entendo porque as imagens na minha cabeça me provocaram essa sensação.
Mas já que aqui estou, no topo, não terminarei o planeado sem antes combater essa vertigem. Fecho novamente os olhos. As imagens começam a passar, primeiro devagar. O meu batimento cardíaco aumenta exponencialmente, prevendo o que se seguirá, a ele juntam-se os dentes que mordem nervosamente o meu lábio. Os pedaços soltos da minha existência começam a ganhar velocidade. As unhas cravam-se nas palmas das mãos. A sensação no peito começa-se a sentir, primeiro uma leve impressão, como um toque estranho, mas suave, depois vai aumentando como um abraço forte demais que começa a sufocar-me lentamente. Perco o controle, começo a cair por entre as imagens que aparecem por todos os lados, algumas nítidas, outras desfocadas demais, manchas.
Duas esferas cinzentas apoderam-se do espaço, do tempo. As imagens cessam o seu movimento. O abraço asfixiante desfaz-se, a estranha sensação no peito desaparece. Venci a vertigem. As esferas olham-me, as esferas são olhos, presos numas linhas, num rosto, com um nariz e uma boca onde vislumbro um puro e belo sorriso. Sorrio. Suspiro.
Despeço-me das esferas e das linhas. Abro os olhos e vejo, chão.
